O JEITO DA GESTA CRIOULA:

JORGE AMADO E O CANTO ÉPICO DA MESTIÇAGEM

 

Cid Seixas – UFBA

 

Território habitado por uma nação de caboclos e pardos, cafuzos, gente de pouca pabulagem e de muito agir (Jorge Amado, Teresa Batista Cansada de Guerra, Introdução).

 

Jorge Amado se vale da sátira e do humor para compor uma crônica de costumes do viver baiano, afirmando a identidade e os valores do povo mestiço. Convém assentar, como ponto de partida ou como premissa, que em alguns dos seus livros há um virtual projeto de demolição do eurocentrismo. Chamo de virtual projeto — desatrelando o termo “projeto” da seu rigor científico — porque, embora diluído por entre os jogos da fantasia, este mapa de deslocamento ou de apagamento do eurocentrismo contém todas as condições essenciais à sua realização em uma leitura atenta.

Desconstruir a herança colonial européia e resgatar a auto-estima da raça mestiça — ou do povo brasileiro — é o que Jorge Amado começou a fazer por entre as frestas da história contada, por entre as festas dos sentidos excitados.

Contrária à obra da juventude, que obedecia ao cânone do realismo comprometido com a palavra de ordem do Partido Comunista, a obra da maturidade de Jorge Amado propõe uma espécie de negação anárquica dos princípios socialistas que nortearam o romance de 30.

É evidente que esta guinada, marcada pelo discreto charme da burguesia e exercida mediante a rejeição de qualquer limite à criação artística, desencadearia a reação dos intelectuais de esquerda em forma de condenação à obra amadiana. A partir daí, alguns  estudiosos de formação socialista passaram a ver o escritor Jorge Amado como uma espécie de traidor da causa do proletariado. Depois de aderir, com fervor juvenil e sem nenhuma crítica, aos princípios do realismo socialista, Jorge Amado se deixa tomar pelo desencanto que se apoderou da esquerda após a necrose do totalitarismo stalinista. Os crimes do autoritarismo foram expostos à execração pública e, neste balanço de perdas e ganhos, houve quem descobrisse que os fins não justificam os meios.

E a luciferina luz do dia claro feriu a consciência, anunciando:

— “O sonho acabou”.— Algum tempo depois, outra geração, a dos anos sessenta, também repetiu o patético achado perdido: — “O sonho acabou”.

Outros, no entanto, continuaram impermeáveis ao senso do lugar comum: os fins não justificam. Mas continuaram usando todos os meios para chegar aos fins sonhados.

Considerado este quadro, por que os anos sessenta trouxeram a negação do valor da obra amadiana? Até a metade do século, o elogio do seu texto era quase unânime, vindo, em seguida, um gradativo obscurecimento crítico. Nos anos setenta, esta obra conheceu verdadeiro massacre, tanto do ponto de vista político quanto cultural. No Brasil, a exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos, setores envolvidos com questões raciais apontaram a valorização da mestiçagem no universo de Jorge Amado como mistura impura, ou como apagamento da pureza cultural negra.

De um lado e do outro, o mito da pureza étnica gera segregações. Não é exagero afirmar que a obra de Jorge Amado chegou a ser rejeitada por duas razões contrárias: de um lado, os feitores da pureza africana desconfiavam da construção romanesca de uma civilização negro-mestiça (vendo na mestiçagem o embranquecimento); do outro lado, os patrulheiros arianos não toleravam a elevação do negro à categoria mítica de herói incondicional (vendo na exaltação da mestiçagem a apologia do enegrecimento).

A valorização de uma mitologia crioula pela obra amadiana punha em pé de igualdade velhos mitos europeus e novos mitos afro-brasileiros. Valores, quer sejam politicamente corretos ou não, machistas, patriarcais, ou desconstrutores do estabelecido — valores integrantes dos costumes crioulos da Bahia — constituíram a isto que chamo de “mitologia crioula” da obra amadiana.

Se a cultura dos becos e botecos da Bahia propõe como ideal supremo do imaginário machista e do desejo das fêmeas (não do desejo feminista) um homem capaz de “abater” várias mulheres, este macho arquetípico é tomado como herói pícaro do romance de Jorge Amado.

Se, como contraponto da opressão e do preconceito racial, convém ao mestiço ridicularizar sexualmente o branco — atribuindo a este diminutas dimensões do cetro e generalizando a exaltação dos seus próprios dotes nas dimensões do pau-brasil —, Amado pega o mote e caracteriza seus heróis negros como portadores de falos totêmicos avantajados.

Se a mulher ariana é vista pelo imaginário bairrista como insossa e dessexualizada, devota anêmica de incensos e velas queimadas, Amado pinta a mulata como exuberante caçadora de desejos — e também como suculenta caça.

Galhofa mais matreira não poderia haver aos olhos da castidade cristã que alicerça a hipocrisia da civilização ocidental. Surge neste jogo picaresco, em resposta ou em contraponto ao maniqueísmo da civilização dominante, o simplismo da obra amadiana, onde todos os negos e negras são bons, vigorosos e sexualmente privilegiados.

Esta metonímia cultural, esta caricatura de costumes que funciona como afirmação da auto-estima, porque retirada de uma moeda corrente altamente cotada nas ruas da velha Bahia, foi apontada pelos críticos mais rabugentos como uma forma de reducionismo. Como Ivo viu a uva, quando queria ver a uva, Ivo foi desacreditado por ter visto a uva. Quando havia bananas, pepinos, cenouras, nabos, enfim toda uma variedade vegetal.

Em outras palavras, claramente denotativas: como Jorge Amado elegeu um aspecto anedótico, “folclórico”, para através desta metonímia pintar um retrato de valorização do negro, tais críticos preferiam que ele tivesse realçado outras qualidades que não estas. Talvez achassem melhor colorir no negro os atributos mais apreciados pela civilização européia...

*     *     *

Sabemos que a cultura impõe preceitos e preconceitos, mutáveis em vários tempos. Se agora, a academia revaloriza a obra de Jorge Amado, convém lembrar que há dez ou vinte anos atrás os cursos de Literatura das universidades baianas não dedicavam nenhuma disciplina ao estudo dos livros do seu maior contador de histórias.

Hoje, estudos de gênero procuram observar o lugar da mulher nos romances de Jorge Amado, estudos étnicos percorrem a construção da identidade negra, estudos culturais encontram importantes estratégias de descolonização do pensamento.

Voltando à pergunta acima formulada — Por que a obra deste contador de histórias da civilização mestiça atravessou turbulências e calmarias, quedas e baixas na bolsa de valores da crítica da cultura?

Uma hipótese é que isso decorre do fato de Jorge Amado ter sido, de início, um fiel tradutor dos princípios e mandamentos do marxismo soviético, para em seguida abandoná-los em favor do flerte mais aberto com os festins da burguesia. Se o romancista dos primeiros livros escrevia para comunista nenhum botar defeito, ao se desligar das imposições do Partido, ele experimentou a liberdade absoluta de criar, renunciando inclusive ao princípio segundo o qual a literatura deve por em primeiro plano a sua função de construtora e forma do conhecimento. Livre para criar, Amado procura a antítese da obra engajada: a literatura feita para divertir.

Por entre o riso solto e a narrativa de aparência meramente anedótica, o romancista produz o melhor da sua obra, ocultando o compromisso social por entre as dobras de um tecido alegre. Do discurso marcado pelo cumprimento de tarefas partidárias, evoluiu para um discurso pleno de sentidos, armadilhas, sugestões e arremedilhos.

Ora, o leitor habituado ao romance de tese, onde a mensagem política sobrepujava o jogo do prazer, veria o novo figurino amadiano com a mesma suspeita dirigida à figura intelectual do ex-comunista que passou a desfrutar a confortável intimidade de bem nutridos burgueses. Deixar o Partido por discordar das suas práticas era um fato considerado equivalente à traição aos seus princípios. Daí a metralhadora giratória do patrulhamento ter varrido a obra de Jorge Amado, espicaçando o distanciamento, e tornando-o ainda maior, com as práticas ditadas pela estética marxista.

Comparado a outro grande escritor da geração de 30, Graciliano Ramos, observa-se que Amado deu essa guinada radical porque também foi radical o seu comprometimento com as tarefas intelectuais ditadas pelo Partido. Graciliano produziu as primeiras obras com a liberdade criadora e o rigor artístico exigidos por um projeto estético durável; menos sujeito, portanto, às limitações do realismo socialista. Jorge pagou tributo à adesão açodada à ideologia do proletariado, através dos óculos da burocracia partidária.

Passados os fatos traumáticos de uma história político-literária, podemos reler os acontecimentos e, principalmente, podemos ler o texto de Jorge Amado com olhos limpos e enxutos de amores e ódios cruzados.

Dois romances da maturidade do escritor podem ser tomados como obras de síntese de duas grandes vertentes temáticas: Tocaia Grande, que tem como subtítulo esclarecedor A face obscura, e O sumiço da santa, também seguido de um subtítulo, Uma história de feitiçaria.

Tocaia Grande, publicado em 1984, retoma a saga do cacau e o mundo dos coronéis, mostrando o início de uma cultura que produziu riquezas hoje perdidas, a cultura grapiúna. Mas Adonias Filho, outro romancista da região ressaltou que, além do cacau, o sul da Bahia produz escritores.

Se a riqueza colhida dos frutos viu a safra minguar, a que foi construída pelos escritores perdura. Em Tocaia Grande, Jorge Amado volta à terra adubada de sangue e suor, onde heroísmo, vilania, usura e miséria se completam em torno da exploração do homem.

As palavras de pórtico do livro, espécie de epígrafe a si mesmo, valem por um manifesto:

 

Digo não quando dizem sim em coro uníssono. Quero descobrir e revelar a face obscura, aquela que foi varrida dos compêndios de História por infame e degradante;  quero descer ao renegado começo, sentir a consistência do barro amassado com lama e sangue, capaz de enfrentar e superar a violência, a ambição, a mesquinhez, as leis do homem civilizado. Quero contar do amor impuro, quando ainda não se erguera um altar para a virtude. Digo não quando dizem sim, não tenho outro compromisso.

 

No painel traçado em Tocaia Grande, o maniqueísmo dos primeiros romances que punha, de um lado, os proprietários, representantes do mal, e do outro os trabalhadores, encarnando o bem, é quebrado pela exaltação do desbravamento pioneiro de alguns coronéis, responsáveis por um importante ciclo da economia e da cultura brasileiras. Aí, Jorge Amado rompe com a ingenuidade dos romances da juventude, pintando o retrato dos homens como homens, sujeitos a vícios, grandezas e misérias. E em meio a isto, ressalta a vitória suja dos canalhas e a gênese do poder sustentado na vilania e na traição. O foco é ampliado do regional para a micro-física do poder, conferindo ao particular uma dimensão metonímica capaz de torná-lo universal.

“Quero descobrir e revelar a face obscura, aquela que foi varrida dos compêndios de História por infame e degradante; quero descer ao renegado começo” — é a sua proposta de flagrar a origem e a consolidação dos poderes legitimados pela História dos vencedores.

O outro romance de síntese da maturidade de J. A. é O sumiço da santa, escrito entre 1987 e 1988. Ele dilui entre o picaresco e o riso deslavado dos arremedilhos e presepadas uma análise desarmada e penetrante do aniquilamento de valores europeus em face à densa contribuição africana.

Ao trocar o nome original do livro A guerra dos santos, de aspecto épico e grandiloqüente por um prosaico O sumiço da santa: Uma história de feitiçaria, Jorge Amado encena diante do leitor o papel do jogral alegre que se diverte ao fazer os outros se divertirem. Ou melhor: que se diverte ao despistar o divertido leitor.

A solenidade trágica do discurso literário valorizado pelo realismo socialista é substituído pelo aparente “sorriso da sociedade”, pela fingida farsa do despreocupado burguês.

Mas este texto, O sumiço da santa, entremostra que seu autor não é somente um escritor divertido. É um feiticeiro fingido que esconde os poderes do seu ebó. O tema é, na verdade, uma guerra de demiurgos, de deuses poderosos, um confronto de culturas e raças em busca de caminhos e de identidades.

O realismo mágico da escrita amadiana converte-se em alegoria épica de uma gente. O alegórico presentifica a insubmissão de uma cultura e transforma os negros, pretensos objetos de submissão de um povo colonizado, em construtores de uma outra e insubmissa cultura: a cultura crioula de um país mestiço.

A trama romanesca põe de um lado os valores da civilização européia cristã, representados por um personagem caricato: o padre espanhol José Antonio Hernandez; do outro lado, a chamada "gentinha", a ralé, os cavalos de encantados trazidos da África nos porões dos navios negreiros, a gente morena da Bahia, seus orixás, suas crenças, sua ética adversa à moral dos colonizadores.

O narrador dos romances de Jorge Amado simula a perspectiva do dominador, dos bem-nascidos donos da terra e dos desígnios do céu. A escolha vocabular marcada pelo preconceito das expressões usuais para designar os párias da pátria ganha relevo em confronto com a gesta plebéia, o canto das façanhas de heróis anônimos. Ironia e exaltação épica perpassam o texto numa fusão insólita: aquilo que ele designa, entre irônico e sério, de "romance baiano".

A nação negra e mestiça, que constitui mais de oitenta por cento da população de Salvador, é o herói plural da narrativa amadiana.

Assim como os poetas épicos e dramáticos da tradição européia estabelecem um discurso recorrente aos mitos e costumes da sua cultura, o texto amadiano se instaura como diálogo intertextual com o substrato popular de uma civilização nascida na Bahia: os mitos e tradições dos descendentes de príncipes e súditos africanos trazidos como escravos.

A moral, a religião e outros elementos constituintes da cultura baiana, ao oscilarem entre as lições do colonizador europeu e as alegres práticas dos becos mestiços, são untados pelo azeite e pelos mistérios concretos transpostos da velha África. Com jeito de gesta crioula, o realismo fantástico e maravilhoso, ou a farsa mágica e mística dos orixás e santos sincretizados, converte-se em canto épico de afirmação de um povo mestiço, cafuzo, caburé. Eu, tu, ele — nós.